A DEMOCRACIA NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA TEM LIMITE

Depois de tanto tempo lendo críticas pertinentes porém, em sua maioria, infelizmente inócuas a respeito do discurso da Grande Mídia, passei a me interessar pelo ativismo em rede em pequena escala e pelo empoderamento dos excluídos através do ensino e da prática do uso simultâneo de uma série de mídias sociais, pois tanto a mídia de massa precisa da blogosfera alternativa, ativista e politizada como esse nicho precisa da mídia de massa. Do contrário, o gigantismo e a arrogância da mídia corporativa irá sempre perder espaço para o jornalismo cidadão e a blogosfera ativista será lida sempre por meia dúzia de gatos pingados.

Prefiro fazer coisas mais produtivas do que ficar criticando o que os jornais ou a TV dizem o tempo inteiro por quatro razões atravessadas entre si (isto é, todas influenciam e são influenciadas, refletem e são reflexo das outras em infinitos graus de crença, de agendamento e de práticas sociais):

1) A mídia corporativa sempre irá defender o lado de seus patrocinadores, dos políticos que podem ajudá-la a reduzir encargos trabalhistas, impostos e pagar menos pelos insumos que utiliza. Quem se opuser a eles em questões pontuais, será defenestrado, mesmo que já tenha sido muito seu amigo. E quem sempre se opôs a seus interesses explícitos e ocultos jamais deixará de ser ou ignorado, ou criminalizado. Porém, a Pequena Mídia também possui patrocinadores, valores e interesses que podem, um dia, deixar de ser valores universais e perderem o seu caráter de tentativa de eqüidade social, tornando-a um pouco direitista e fazendo com que a reação da direita seja um pouco esquerdista sem nenhum constrangimento ou contradição;

2) Mesmo os seus profissionais mais honestos e competentes são conservadores que escrevem para uma esmagadora maioria conservadora. No dia que a esquerda tiver um poder semelhante ao da direita, ela também se tornará tão excludente, criminalizadora e totalitária quanto sua ideologia mais siamesa do que oposta em vários sentidos;

3) A clara contradição de copiar, linkar e citar o grosso das posições com as quais a esquerda concorda ou discorda a partir da informação publicada pela própria mídia corporativa em relação ao pequeno número de citações sobre a mídia declaradamente de esquerda (ou, se não for de esquerda e nem nanica, que pelo menos não tenha o péssimo hábito de brigar com a notícia);

4) Logo, o PIG só é PIG e ele só possui um pensamento único quando convém, seja à esquerda, seja à direita. Sim, ele é contraditório, mentiroso e comprometido com a direita. Mas, ao mesmo tempo, ele não deixa de orientar, de situar, de informar e de realizar algumas denúncias e investigações mais cidadãs, de interesse comunitário e solidário – nem que exerça um jornalismo honesto, tecnicamente correto e socialmente relevante em não mais do que  15% a 20% de seu conteúdo.

O mundo da mídia apresenta muitos exemplos que justificam a minha posição. Talvez o mais significativo seja o da Inglaterra, que tem a grande mídia menos desonesta, mais educativa e mais controlada por um governo (ao menos juridicamente tido como) democrático em todo o planeta. Nem por isso sua população altamente escolarizada e com alto poder de compra deixou de ser conservadora ou passou a protestar nas ruas de maneira sistemática.

No plano político, caso a esquerda (a inteligente e coerente – infelizmente, uma pequena minoria) tivesse dinheiro e poder, acabaria criando uma mídia hegemônica às avessas que, por sua vez, tornar-se-ia autoritária e mentirosa às avessas. Além disso, as ações políticas e sociais públicas ou privadas verdadeiramente voltadas para aqueles que mais precisam são muito pequenas e ainda deixam muita gente de fora (até mesmo a política de cotas nas universidades, o Bolsa Família, o investimento pesado em pesquisa acadêmica, o piso nacional para professores de escolas da rede pública, o aumento salarial para boa parte do funcionalismo federal, o investimento em infra-estrutura e a independência do FMI e dos EUA até determinado ponto).

Os próprios políticos são extremamente movidos por interesses diversos, que os impedem de votar 100% a favor do programa ou da ideologia a qual pertencem. Portanto, o ativismo em rede voltado para a solução presencial a partir de um chamamento e de um esclarecimento não-presencial e pulverizado na rede tende a ser mais eficiente como mecanismo de resistência, desde que não almeje o poder e exerça uma pressão sistemática e descentralizada sobre todas as formas de opressão e exclusão (econômica, simbólica ou coercitiva).

Por mais regulado que seja um mercado de mídia por qualquer governo, em qualquer lugar e a qualquer época, a dominação de qualquer viés político-ideológico via mídia de massa como instrumento de propagação de valores depende menos da ignorância de quem não tem estudo e é pobre, da cantilena reacionária ou do exercício da falácia de que “a gente noticia aquilo que o nosso consumidor quer”: afinal de contas, repito mais uma vez que a esmagadora maioria da população é ou torna-se conservadora com o passar do tempo.

Isso leva a outro ponto: não dá pra forçar a barra exigindo uma lei que restrinja os investimentos em mídia de quem é hoje hegemônico e que proíba ou regule qualquer viés discursivo: primeiro, porque eles podem cobrar o mesmo do lado oposto (jurisprudência); segundo, porque, mesmo que se casse as concessões irregulares, a rede social dos ricos é infinitamente mais inteligente, ampla e complexa do que a dos pobres ou da esquerda, pois eles sabem se relacionar melhor entre si e defendem com maior unidade seus interesses.

Isso explica facilmente os tentáculos de Rupert Murdoch em mais de 100 países: aonde puder, ele fará uso de lobby político, econômico e simbólico. Porém, em muitos lugares, ele não precisa entrar na política, não precisa de uma bancada parlamentar parceira e nem tampouco burlar leis de concessões. O que o impede de comprar zilhões de veículos caso não seja comprovada nenhuma atividade ilegal? Afinal de contas, ele não precisa ter ações nem patrimônio em seu nome nem no de qualquer parente ou funcionário seu. Tudo  isso se arranja sem burlar a lei.

Por fim, a Lei da Potência, Curva de Paretto ou Cauda Longa é um processo que não foi até hoje convincentemente contestado nem pela Matemática, nem pela Biologia e nem pelas Ciências Sociais: a humanidade sempre possui infinitas formas de escolher uma referência e a ela dar credibilidade. Sua preferência por um e não por outro é algo muito mais profundo e subjetivo do que a crença do senso comum de esquerda de que qualquer valor individual tem como origem os embates e as crenças político-partidárias, midiáticas ou econômicas. Sim, elas fazem parte. Contudo, não explicam as preferências e as repulsas por si próprias.

Mais um exemplo: digamos que fosse possível igualar o alcance (ou a tiragem) de TVs, rádios, jornais, revistas; igualar os valores de todos os padrões de anúncios publicitários nessas mídias; obrigar todos os veículos a terem vários concorrentes do mesmo setor anunciando ao mesmo tempo; fiscalizar a ocorrência de matérias pagas; garantir a distribuição de mídia impressa nos mesmos pontos de venda, na mesma quantidade de exemplares e com a edição seguinte de tudo que uma banca vender chegando ao mesmo tempo e possuindo igual espaço na vitrine…

…Mesmo assim, mesmo que houvesse eqüidade e diversidade de opiniões, cada uma com uma definição ideológica clara, o consumidor rapidamente se encarregaria de optar por algumas referências, pois não tem tempo nem vontade de comparar posições diferentes. Ele vai acabar indo atrás daquela opinião com a qual concorda mais.

Conseqüentemente, a escolha do cidadão e do consumidor a partir da sua liberdade de expressão e de ter o direito a consumir o produto que bem entender irá desequilibrar novamente o mercado midiático, que terá toda a razão em cobrar a perda de anunciantes em função dessa eqüidade artificial e forçada, pois até os pequenos estarão ao lado dos grandes em uma questão de subsistência.

Obviamente, em termos de democracia, a inclusão cidadã de novos internautas, as rádios e TVs digitais, a não-criminalização de rádios comunitárias, a execução e obediência das leis de concessão de emissoras e restrições à baixaria na programação proporcionarão um maior empoderamento social a partir da própria experiência do sujeito no manejo de uma mídia pequena. No entanto, o que impediria que uma corporação de mídia conservadora, muito rica e com patrocinadores poderosos mesmo agindo à luz da legalidade de comprar veículos, distribuir infra-estrutura e empoderar à sua maneira pequenas comunidades fornecendo cursos e montando rádios, TVs e jornais comunitários?

Diante de tudo o que foi exposto neste longo artigo, de maneira chutada, diria que se, hoje, sob esta lei da selva e nestas condições econômicas e culturais, o senso crítico e os valores mais progressistas apreendidos pelos raros consumidores da Pequena Mídia não passariam de 5% a 10% da população, mesmo diante do quadro ideal que eu pintei nos parágrafos anteriores, duvido muito que mais do que 30% da população deixaria de seguir um modus operandi conservador.

Finalmente, comprova-se cada vez mais aqui no Brasil a complementaridade da blogosfera ativista independente com a divulgação de suas demandas através da mídia de massa, em uma relação na qual essa mídia de massa passa a perder credibilidade caso deixe de divulgar a notícia a respeito dos micropoderes dispersos em rede, capazes de comer seus pés de barro. A exemplo do que já se verifica nos EUA há mais de meia década, Atualmente, aqui no Brasil, já podemos comprovar que, na maioria das vezes, os blogs só adquirem maior visibilidade quando citados pela mídia de massa e que eles têm o poder de mobilizar e de fazer política de baixo para cima intercambiando a troca de informações e a sociabilidade tanto no ambiente online (tecnologias da informação e da comunicação – blogs, e-mail, mensageiros instantâneos, etc.) como no offline (encontros presenciais).

Pesquisadores experientes e iniciantes (que é o meu caso) têm realizado pesquisas  acadêmicas que apontam nessa direção, através da análise quantitativa e/ou discursiva da audiência de blogs e do conteúdo de seus links, posts e comentários, cruzadas com entrevistas qualitativas. É  a adaptação da etnografia (método consagrado no início do século XX pela antropologia) para aquilo que chamamos de netnografia ou etnografia digital, onde o pesquisador realiza um trabalho militante de envolvimento pessoal com o público observado, que só funciona quando os depoimentos presenciais e o material coletado na ida ao campo (no meu caso, um coletivo de blogs bastante significativo no cenário gaúcho de resistência ao neoliberalismo e ao autoritarismo) são tensionados por teorias das áreas da Comunicação, das Ciências Sociais e da Filosofia, cada vez mais atravessadas por alguns princípios da Biologia e da Matemática que não podem ser ignorados.

Por enquanto, isso é o que eu concluo de tudo o que eu já vi sobre midiatização, economia política da comunicação e das discussões sobre a democratização dos meios de comunicação.

CLASSE MÉDIA e CLASSE MÉRDIA: RETROSPECTIVA

Inspirado no post do ALTAMIRO BORGES sobre SÃO PAULO reproduzido pelo AZENHA, convido-te a ler meus posts antigos a respeito do assunto:

http://heliopaz.wordpress.com/2006/10/16/esquerda-x-direita-no-rs/

http://heliopaz.wordpress.com/2007/02/15/critica-do-pensamento-da-classe-media/

http://heliopaz.wordpress.com/2007/07/19/critica-do-pensamento-da-classe-media-ii/

http://heliopaz.wordpress.com/2007/08/01/211/

http://heliopaz.wordpress.com/2008/03/07/stupid-white-men-gauderios/

http://heliopaz.wordpress.com/2008/03/09/classe-media-gaucha-peleguismo-e-montaria-do-poder/

DANTAS, JORNALISMO, DIREITO, ESTADO, CIBERCULTURA

FATO 1: o Brasil não possui uma Grande Imprensa predominantemente confiável, honesta, justa, investigativa, inquisidora, denunciadora, minuciosa e nem tampouco apuradora. Sinto muito aos bons bacharéis que, ao invés de fazerem valer seu juramento, calam e consentem. Meu diploma de publicitário vale o mesmo que o de jornalista: menos do que um rolo de papel Neve usado. Essa é a realidade.

FATO 2: há vários tipos de jornalista que vivem de jabá. Quando o contrato de prestação de serviços firmado entre ambas as partes assim o permitir, alguns desses profissionais poderão seguir ligados às corporações de mídia. Outros, ao deixarem de ser funcionários dessas corporações, publicam blogs nos quais usualmente procedem de três maneiras predominantes: a) entrevistam predominantemente a mesma base de sustentação política, econômica, social, financeira e cultural de seus antigos chefes, funcionando apenas como um novo megafone para o discurso único; b) não passam de meros assessores de imprensa ou de relações públicas de seus anunciantes; c) em função de a e b, recebem muito mais do que quando eram empregados não por causa do mérito, da trajetória, da suposta credibilidade profissional, mas, sim, porque são mais conservadores e mais realistas do que o rei quando são editores de si mesmos; d) Não passam de uma mera marca, publicando notícias requentadas através do control-C control-V do que saiu em veículos maiores.

Só no RS, há vários exemplos: 1, 2, 3, 4, dentre outros. Reparem como os patrocinadores são, quase sempre, os mesmos. Há como denunciar ou como pensar diferente sendo financiado pelas mesmas fontes?!

Feliz ou infelizmente, o tão criticado, ridicularizado e até mesmo frívolo XICÃO TOFANI cumpre muito melhor com o papel ao qual se propõe a fazer do que os quatro exemplos acima.

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CONCLUSÃO 1: os fatos 1 e 2 comprovam que a midiatização da sociedade é um fenômeno que mistura funções, profissões, atribuições, direitos e deveres de cada um em uma salada cujos ingredientes são absolutamente impossíveis de serem separados voltando-se ao sabor original de cada um.

CONCLUSÃO 2: creio que nenhuma das profissões técnicas atravessada pelos meios de comunicação tem sofrido tanto com esse desencaixe da alteridade e com essa multiplicidade funcional meramente empírica sem grandes reflexões a respeito do verdadeiro papel social de cada um como os verdadeiros assessores de imprensa e os verdadeiros relações públicas. Afinal de contas, seu território foi invadido por pseudo-profissionais ou por profissionais de fato cujo treinamento e prática tinham como objetivo trabalhar outras técnicas enunciativas. Para os RRPPs e para os assessores de fato e de direito, o caminho inverso ou o rápido encontro de outro nicho no qual possam exercer a sua função sem distorções é quase impossível.
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Isso posto, há tanto no “mercado” como na academia opiniões que consideram a profissão de relações públicas extinta em função do canibalismo do assessor de imprensa. Da mesma forma, se a função do jornalista é a de criticar, investigar, denunciar, ouvir os dois lados da questão, traduzir a linguagem vicária de todos os demais campos sociais para a sociedade laica através da temporalidade e da discursividade de seus meios produzindo um discurso aparentemente homogêneo e facilmente compreensível, no momento em que a maioria dos jornalistas depende de patrocínios que carregam valores econômicos, sociais e culturais embutidos em seus objetivos comerciais que devem necessariamente deter a hegemonia sobre seus concorrentes materiais e simbólicos, o jornalismo também QUASE não existe mais – a não ser quando este não dependa da espetacularização de alguns valores e da omissão de outros para sobreviver.

Dado o atual contexto sociotécnico, não podemos mais recuar àquele antigo patamar de compreensão e de operação facilmente percebido até mesmo pela classe média ainda presa ao modus operandi da modernidade: não há como forçar a barra nem para o passado “como o ‘meu tempo’ era bom”, nem para pensar o futuro de maneira apocalíptica (‘o mundo acabou’).

Leis supostamente socializantes (leia-se moralizantes) normalmente são incompletas, arbitrárias às avessas (pois apresentam os mesmos componentes que repudiamos na autocracia de direita legitimados por oportunistas que pareciam estar do nosso lado) e repletas de brechas para que o status quo continue deitando e rolando. Na mesma direção, não consigo ser tão otimista a ponto de crer em um hipotético, utópico, ufanista e espetacularizante código de ética que torne magistrados, políticos, empresários de comunicação, jornalistas corporativos, jornalistas de mídia independente, blogueiros, radialistas, cineastas e artistas tão responsáveis e conhecedores sobre seus direitos e deveres não com a lei mas, sim, com a sociedade.

Vejo blogs dando prioridade à análise do que saiu no jornalão A ou B. Ora, jornal e revista são o de menos. Primeiro: só compra quem quer; segundo: não são concessões públicas; terceiro: cada vez menos gente lê jornais e revistas – os leitores de jornal
tradicionais estão morrendo de velhos. Seus filhos e netos ou trabalham
tanto, ou têm tantas outras opções de lazer e informação disponíveis
online que a tiragem dos jornais está caindo vertiginosamente
PRATICAMENTE NO MUNDO INTEIRO
; quarto: quase sempre, o consumidor padrão do bem simbólico crítico-noticioso pertenceu às classes A e B, cuja influência na base da pirâmide diminuiu drasticamente nas últimas décadas; quinto: a cultura pós-moderna é audiovisual, dinâmica, ubíqüa, fragmentada, inconstante – uma foto num jornal significa muito pouco para essa geração, pois a experiência sensorial que oferece é muito baixa. Seu texto correspondente, menos ainda.

Portanto, o poder do indivíduo está no atravessamento das mídias e no uso que o receptor faz do seu conteúdo na sociedade em que vive. Podemos até julgar, criticar, avaliar, duvidar e até mesmo subvalorizarmos essa experiência midiática multidimensional particular. Todavia, nenhum receptor é passivo: todos estão, cada um a seu modo, ressemantizando e ressignificando tudo o que chega até eles, transformando, reciclando, adaptando e, acima de tudo, PRODUZINDO DIFERENÇA.

Falo sempre em resistência pós-moderna. Em comunicação atomizada, descentralizada, produzida a partir de nós que estabelecem uma teia repleta de laços fortes e de laços fracos ao redor da Terra. Na solução de demandas locais, pontuais, simples, pequenas, mas que resolvem a vida de muita gente ao mesmo tempo – porém discutidas e reverberadas do local para a rede, a fim de que a rede traga de volta para o local uma repercussão em potência de 10 na comparação com a intrusividade do carro de som, das palavras de guerra inúteis do líder sindical mal articulado com o vernáculo, do panfleto mal redigido e de chegar à praça pública de maneira desordenada, impensada, não-planejada, previamente anunciada (dando a cara a tapa para a polícia e para a mídia corporativa vociferar como bem entender a respeito dessa manifestação).

Portanto, o Paulo Sant’Ana, o Nelson Sirotsky, os políticos de direita, empresários e latifundiários que eles usam em seus editoriais e até mesmo a página 10 da Rosane de Oliveira e nada são QUASE a mesma coisa.

Claro que o que fica registrado por escrito pode ser documentado e retomado tantas vezes quantas o suporte dessa informação (papel, plástico, pano) permaneça intacto. Mas o peso da mídia corporativa (sobretudo a impressa) é realmente muito menor do que parece ter. O que fede mais é o que é ouvido, o que é assistido e o que deixa mais marcas na memória – o audiovisual: o Sant’Ana no Jornal do Almoço; a Rosane de Oliveira na Rádio Gaúcha e na TV COM; o Lasier Martins na RBS TV, na Rádio Gaúcha e na TVCOM e tantos outros produzem subjetividades mais intensas e tão marcantes quanto efêmeras ATRAVÉS DE CONCESSÕES ILEGAIS DE ONDAS ELETROMAGNÉTICAS REGIDAS PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E PELA LEI GERAL DAS TELECOMUNICAÇÕES.

Mesmo assim, a TV aberta felizmente está sofrendo do mal do gigante do pé-de-feijão: não é apenas o seu público tradicional que está desenraizado da sua alteridade, da sua territorialidade e que não sabe como nem em que espaço discutir política. Ela mesma desconhece os meninos nascidos desde o início da década de 1990. No começo, atraíram-nos até o seu castelo sobre as nuvens. Depois, deixaram a galinha dos ovos de ouro ao seu lado e pegaram no sono. Finalmente, João já está de volta ao solo e já pegou o seu machado.

Portanto, é preciso ter um QI de funcho ou uma visão de mundo restrita ao volume de um ovo de tênia para acreditar piamente nos produtos políticos e consumistas das corporações mídia de massa. Afinal de contas 40% dos brasileiros já possuem acesso freqüente à internet, mais de 20% já possuem computador + acesso discado em casa e, a despeito do uso mais freqüente ser para e-mail, MSN, ORKUT, YOU TUBE, notícias (predominantemente dos mesmos grupos de mídia de massa) e, um pouco mais abaixo na lista, para ler, comentar e blogar (sendo que menos de 10% dos blogs lidos são sobre política),

Escrevi este post em função da prisão do DANIEL DANTAS (que, em breve, será solto porque JOSÉ DIRCEU é funcionário dele e JOSÉ EDUARDO GREENHALGH é seu braço jurídico e político dentro do PT, que possui o rabo preso sim, senhor) e da catrefa de peixes pequenos tucano-pefelês pega na mesma tarrafa (FHC, ACM, LUIZ EDUARDO MAGALHÃES, SERJÃO – todos escaparão); da crise no judiciário; e, finalmente, por causa das conclusões da blogosfera sobre o episódio POLÍBIO ADOLFO BRAGA x NOVA CORJA.

Até bem pouco tempo atrás, confesso que levava muito a sério o acompanhamento da mídia corporativa de massa (rádio, televisão, jornal, revista). Hoje, ela me irrita: se intromete na minha vida, no meu trabalho, no meu lazer, na minha intimidade, no meu espaço, na minha privacidade, usa um megafone a 10 cm de distância do meu ouvido, cores berrantes e letras garrafais a 1 cm dos meus olhos e passa o tempo todo dizendo o que e como comprar, como educar os filhos, como votar, quais deveriam ser os meus valores, como ela acha que eu deveria ser cidadão e por aí afora.

Não nego que, embora socialmente precário e reduzido, o seu papel informativo existe e possui lá a sua importância. Também não nego nem a necessidade e tampouco a importância de algo que me irrita muito mais do que o suposto efeito dos meios de comunicação, que são as instituições políticas e sociais. Também não pretendo me tornar um fora-da-lei.

Todavia, o que se vê na política, nas corporações e em parte da mídia nada mais é do que o reflexo da pior crise de identidade da história da humanidade. Tal crise torna-se ainda mais dramática à medida que nem metade da população das duas últimas gerações brasileiras ainda é capaz de enxergar o mundo simultaneamente a partir de todos os significados pessoais e sociais de pertencer a um certo território ao mesmo tempo em que teletransporta-se incessantemente no ritmo da vazante da infomaré.

As leis e o uso do poder no Brasil contemporâneo não dão conta nem dos integrados, nem dos apocalípticos. A aproximação e o intercâmbio entre ambas as maneiras extremistas de reconhecer a si mesmo dentro da sociedade surgem em ondas disformes, impermanentes, imprecisas que, assim como vêm até a praia, voltam para o oceano.

Então, como é que eu posso aceitar me submeter passivamente a um sistema caduco que só me prejudica?! Pra que chover no molhado tentando convencer tanta gente diferente a pensar como eu se nem eu mesmo sei se o que é melhor pra mim hoje vai ser melhor pra mim ou pra todos amanhã?!

Se eu quero adesão, parece ser mais fácil eu disponibilizar o que eu penso não através de um outdoor, de um megafone ou de um locutor piegas cheio de caras e bocas: eu vou deixar poucas idéias – nada muito complexo – num lugar onde quem quiser ver, vai encontrar. Se gostar, vai falar comigo. Se quiser aderir, vai multiplicar à sua maneira. Quando houver massa crítica suficiente (que pode ser de Porto Alegre, de Roma ou de Nairobi), a gente articula um plano de ação, cada um no seu lugar. Quando tudo estiver pronto, a gente sai pra rua sem ser contra ninguém, mas apenas a nosso favor.