
"Entender o passado, vivenciar o presente e projetar o futuro": mas em que ritmo?
Esperava há muito tempo por poder me sentir razoavelmente competente para voltar a discutir questões de fundo macroeconômico. Embora não seja economista nem lide com comércio exterior, acredito que possa sair dessa sem ser superficial nem ignorante. ;)
O @eduguim cantou a pedra em seu post sobre a forma com que a China está dominando o mundo. Não estou aqui para discordar dele mas, sim, para ampliar um pouco mais as possibilidades de o Brasil evitar o risco de se ver em um beco sem saída.
O @realjosedeabreu, por sua vez, chama a atenção para uma não menos excelente análise da conjuntura que nos envolve feita pelo @emirsader na @cartamaior.
Do alto da simplicidade da qual disponho por não ter conhecimento suficiente para sofisticar o meu discurso nesta área, para alguns, irei chover no molhado. Mas acho que vale a pena insistir…
Enquanto não pudermos ser produtores abundantes de ciência, tecnologia e produtos de alto valor agregado, o Brasil* seguirá correndo sérios riscos em sua política macroeconômica. Por que? Porque as nossas escolhas de acordos comerciais internacionais não são exatamente as mais justas para conosco.
Obviamente, é muito melhor trabalhar com mercados megapopulosos (China e Índia) e teraendinheirados (Oriente Médio) do que com aqueles que estão quebrados. Refiro-me aos EUA (onde estourou a crise do mercado subprime) e ao Japão (que é a potência econômica mais ligada aos EUA), além da sempre parcimoniosa União Europeia (cujas contradições multiculturais e a eterna lembrança de uma indesejável guerra sempre a fazem puxar o freio de mão – diga-se de passagem, Alemanha, Grécia e Portugal tem sofrido bastante os reflexos da crise de 2008, sendo que, em alguns lugares, a trolha resolveu explodir muito depois).
Sabemos que o mundo está intimamente interconectado e que os laços reforçam-se à medida que deixamos para trás um passado eminentemente periférico. Vimos uma política de relações exteriores deixar de ser submissa e tratar de reforçar outros laços anteriormente tênues. Enfim… Foram medidas louváveis do Governo Lula que – oxalá – tenham continuidade e um bom aperfeiçoamento agora no Governo Dilma.
O Brasil tem condições não apenas de dividir espaço ou de apenas ser parceiro dos demais integrantes do BRIC mas, sim, de fomentar o crescimento pelo menos da África do Sul (Rússia, Índia e China possuem mão-de-obra, commodities e tecnologia bastante competitivas). Dessa forma, o nosso protagonismo em nível mundial tenderia a crescer.
Por mais que já tenhamos melhorado muito em termos de poder de barganha e influência a partir de relações ganha-ganha junto ao Mercosul e à África, precisamos fazer muito mais do que vender carnes para o Oriente Médio. E, em relação à Europa, a saída é investirmos fortemente em educação, em segurança e em infraestrutura, a fim de atrairmos para cá uma massa cada vez mais numerosa de turistas.
No frigir dos ovos, o que mais me preocupa é o estado de dilapidação da educação no país. Apesar dos custos e de termos evoluído bastante desde que Lula assumiu, ainda assim o resultado que temos até o momento é muito lento tanto em quantidade como em qualidade: a formação escolar é risível, pois o desenvolvimento cognitivo, motor, humanista e o fomento à criatividade e ao empreendedorismo dos jovens brasileiros é assustadoramente lamentável.
Me parece que o Governo Dilma determinou que se tirasse o pé do acelerador nos investimentos em saúde e educação (de maneira, a meu ver, inaceitável e injustificável, pois deveria fazer os ricos sentirem nos seus próprios bolsos) por causa dos generosos financiamentos do BNDES para a construção civil especulativa que hoje toma conta das cidades-sede da Copa do Mundo, além da Olimpíada, em um país no qual – paradoxalmente – temos um déficit de 10 MIL quadras esportivas baratinhas, simples, de cimento, nas escolas públicas pelo país afora. E aonde os professores de Educação Física e de Artes (Música, Teatro e Artes Plásticas) são deixados para o último lugar nos PPPs (Projetos Políticos-Pedagógicos) como se fossem “o cocô do cavalo do bandido”.
Ora, está mais do que provado que, em uma sociedade fomentada pelo individualismo, pelo consumismo, pela despolitização e pela alienação, a máxima greco-latina “mens sana in corpore sano” colabora de uma maneira absolutamente fantástica para o fomento da solidariedade, de uma competitividade sadia na qual o adversário não é visto como inimigo, para o respeito, para a criatividade e para a sensibilização do corpo e da mente, abrindo caminhos antes inimagináveis para crianças e adolescentes. Nesse sentido, há OSCIPs que substituem o papel do Estado que, nesta seara, tem-se demonstrado incompetente.
Porém, outra fonte que parece ter baixado substancialmente de nível em seu reservatório é a da Petrobras: o Governo precisa gastar muitos bilhões antes de começar a explorar os poços do Pré-Sal – seja parte por conta própria, seja por parte dos acionistas estrangeiros, que – salvo raríssimas e honrosas exceções – exigem resultado ou certas garantias para liberarem o seu dinheiro para nós.
Por fim, as obras do PAC (algumas aceleradas, outras lentas, algumas sustentáveis, outras não) tem consumido uma significativa alocação do dinheiro disponível no país.
O quadro é bastante complexo e perigoso: afinal de contas, tudo o que deveria passar primeiro pela EDUCAÇÃO iniciou-se pela infraestrutura que, em função dessa escolha, também se vê prejudicada, pois o país tem um déficit de mais de 22000 engenheiros.
Porém, sem Sociologia, sem Filosofia, sem Psicologia, sem História, sem Geografia, sem Português, sem Inglês, sem Espanhol, sem Direito, sem Administração, sem Teatro, sem Música, sem Artes Plásticas e sem Educação Fïsica DESDE O ENSINO MÉDIO, não há sensibilidade, não há humanismo, não há uma percepção mais clara acerca do mundo que cerca cada indivíduo e cada comunidade. Não há o entendimento de que a vida é muito maior do que gastar dinheiro e viver restrito ao seu – normalmente – restrito círculo de conhecidos.
Pior: a ética e o compartilhamento de ideias e de sensações ficam altamente comprometidos. Sempre irão existir e sempre haverá um crescimento para melhor. No entanto, sem essa fundamentação básica, valores como o da HONESTIDADE serão ainda mais comprometidos.
Não basta apenas garantir o alimento, o vestuário, a energia e um ambiente salubre para descansar, estudar e trabalhar: é preciso ter como objetivo formar CIDADÃOS melhores.
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*Por sinal, o nosso portal governamental está muito melhor do que era até poucos meses atrás – hoje, pelo que tenho acompanhado, só perdemos para EUA e Reino Unido; clique aqui e aproveite parte deste feriadão para conhecer melhor as nossas políticas públicas, a hierarquia das nossas instituições e o nível de feedback até agora disponível ao cidadão.