Apesar de uma grande vitória sobre o Tradicional Adversário por dois gols de diferença e de um ataque eficiente muito bem municiado por um meio-de-campo criativo como há muitos anos não se via pelas bandas do Olímpico, a versão 1.0 do Grêmio 2010 permaneceu durante muito tempo em estágio beta de desenvolvimento. Mesmo com o infortúnio de uma série de lesões de natureza grave (Souza e Lúcio), muscular (Borges, Leandro, Maylson e Ferdinando), acidental (os Rochemback e Santos) e crônica (Mário Fernandes), demorou-se para escalar os melhores meninos da competente base tricolor e foi duro engrenar uma boa dose de segurança defensiva. Mesmo a partir do ponto em que o time finalmente recebeu uma “cara” própria e passou a obter resultados agradáveis em função da continuidade da escalação principalmente nos primeiros três meses desta temporada, Silas nunca pôde lidar com uma certa tranquilidade, embora tenha recebido um merecido reconhecimento após o título do Bovinão 2010.
Porém, os bugs nunca desapareceram do código e todas as rotinas posteriormente corrigidas sempre resultaram em novos problemas a partir da solução nem sempre definitiva de falhas anteriores. Isso se deve principalmente à constatação de que, infelizmente, o Grêmio possui um time tecnicamente inferior a Santos, São Paulo, Cruzeiro, Tradicional Adversário e Flamengo (apesar deste último ter piorado em relação a si mesmo).
Durante o recesso forçado pelo calendário muito mal planejado (que interrompe a Copa do Brasil e a Libertadores justamente em suas fases decisivas – a culpa é toda da CBF e da CONMEBOL sabe-se lá por que motivo), não é apenas a comissão técnica capitaneada pelo técnico Silas e pelo preparador físico Ânderson Paixão que terão que quebrar a cabeça para tentar fazer mais e melhor com o plantel atual. Para termos condições de – no mínimo – lutarmos pelo título inédito da Copa Sul-Americana e, acima de qualquer outra ambição, de pregarmos uma peça na lógica e obtermos em dezembro uma vaga à Libertadores 2011 ou até mesmo o tão sonhado tricampeonato brasileiro, o que temos hoje em casa não será suficiente nem mesmo sob condições físicas ideais após um mês de treinamentos e amistosos. Em geral, temos um plantel acima da baixa média nacional.
Contudo, o presidente Duda Kroeff, o vice de finanças Irany Sant’Anna Júnior, o vice-presidente de futebol Luiz Onofre Meira, o diretor de futebol Guerra, o gerente Cïcero e os grandes comandantes das categorias de base (Edson Aguiar, Mauro Rocha e o Cel. Élvio) precisarão trabalhar em tripla jornada, sob pena de ficarmos para trás também de times ora tidos como medíocres como Atlético-MG, Fluminense (assim que engrenar nas mãos de Muricy Ramalho) e Vasco (agora, com Celso Roth, certamente não será mais candidato ao rebaixamento), sem contar as surpresas de sempre.
É chover no molhado afirmar que temos um plantel limitadíssimo em quantidade e em qualidade – sobretudo em ambas as laterais tanto na titularidade como na reserva, mesmo com a volta de Lúcio e Fábio Santos, pois nem mesmo a revelação Neuton teria ainda um reserva à altura. Temos um bom goleiro reserva no jovem Busatto, apesar da desconfiança de muitos sobre os seus tenros 19 anos; a zaga, apesar de menos veloz e menos impetuosa do que a titular, demonstra qualidade, disciplina e uma certa confiabilidade em Ozéia e Rafael Marques. Infelizmente, me parece que os consagrados Saimon (zagueiro-direito) e Bruno Collaço (lateral-esquerdo) ainda não amadureceram o suficiente – e sabe-se lá se o prazo de afirmação deles no Grêmio já não estaria com seus dias contados. Adílson precisa de um companheiro tão combativo e capaz de sair jogando na volância. E esse parceiro não é Ferdinando, Fábio Rochemback e nem tampouco WIllian Magrão. Na meia, desde que não haja lesões ou suspensões, estamos bem servidos com Douglas, Maylson, Hugo, Leandro e Souza. Esse setor nenhum outro clube brasileiro hoje possui. Porém, no ataque, temos apenas Borges e Hugo, pois não há futebol de primeira linha em William “Batoré”, Bérgson nem em Róberson.
Certamente esqueci de alguns jogadores. Também não me informei acerca da condição de possíveis novas promessas do Sub-17 ou do Sub-20 que poderão estourar ainda neste ano. Haverá uma busca desenfreada por novas contratações que, mais do que nunca, precisam ser pontuais, com pouquíssima margem de erro.
Afinal de contas, o futuro do modelo de gestão do clube tão bem-sucedido em vários setores nesta refundação do Grêmio a partir de 2009 depende sobretudo de resultados positivos e frequentes do futebol profissional. O novo condomínio de credores, o novo plano de sócios, o crescimento do faturamento a partir de critérios mais rígidos de licenciamentos de produtos foram conquistas que aproveitaram bem o embalo do aquecimento da economia brasileira dos últimos anos.
Todavia, o que fica no imaginário popular é o que sai na mídia: independentemente do que se pense de positivo ou de negativo em todos os aspectos acerca da Arena, a sua idealização está diretamente vinculada ao presidente Odone e a pessoas ligadas aos movimentos que hoje estão na oposição. A torcida em si não quer saber que o time precisou ser refeito neste início de 2010, nem que 2009 transcorreu abaixo das expectativas de todos dentro de campo por causa de uma previsão menor no caixa durante o final da gestão Odone e o início da gestão Duda.
Não sei se é ser otimista, pessimista ou realista. Mas a única – e derradeira – chance de o Grêmio parar (pelo menos por enquanto) de trocar de metodologia e de ação executivo-administrativa sem uma verdadeira governança corporativa ou sem um projeto de clube que perpasse pessoas e grupos políticos passa necessariamente pela conquista do Brasileirão.
O time e o apoio da torcida são muito mais importantes do que a preocupação com o novo estádio: se as urnas passarem pela bola no pé, o G6 ainda tem alguma chance. Mas se passarem pela Arena, não. Inclusive acho que a vinculação da Arena aos nomes de Odone e Antonini e aos movimentos Grêmio Novo e Grêmio Independente é tão forte que mesmo uma aparição sistemática e contínua de integrantes da atual situação que apóiam incondicionalmente o projeto serão tão lembrados quanto precisariam ser no futuro.
E o 2º semestre só poderá ser próspero caso nossos desenvolvedores passem a trabalhar em ritmo de startup, não mais como uma empresa exageradamente hierarquizada onde cada um de seus integrantes possui um nível decisório predominantemente individual.
Que venham os reforços e que saiba-se antecipar as articulações políticas…