Não posso afirmar que eu “seque” o Brasil. Mas também não posso afirmar que eu não “seco”. Por motivos bem pessoais, me dou o direito de amar futebol e de detestar a Seleção Brasileira Masculina Adulta da CBF e de seus patrocinadores graúdos que paga pau para a Rede Globo.
A primeira Copa que acompanhei foi a de 1982. Eu era uma criança de apenas nove anos de idade. Tinha o álbum Ping-Pong da Copa do Mundo, colei os adesivos que vinham nas bandejas de yogurte Yoplait na porta do meu quarto, andava pra lá e pra cá com a minha bandeira nacional de plástico com o Naranjito colado nela. O narrador titular da Globo era o Luciano do Valle e o comentarista era o Márcio Guedes. O eslógão da emissora na época era “Mundial’82: todos em ação para um Brasil campeão”.
Na 3ª série do Daltrão, éramos dispensados mais cedo para assistirmos aos jogos do escrete canarinho.
28 anos e sete Copas depois, sem querer desmerecer ninguém e sem comparar alhos com bugalhos, revi há poucas semanas atrás o fatídico Brasil 2×3 Itália que desclassificou a Seleção e causou um clima de velório bem maior do que o Maracanazo dos bravíssimos e categóricos orientais Obdulio Varela, Schiaffino, Ghiggia e também maior do que o da verdadeira morte – a morte do piloto de F1 Ayrton Senna da Silva.
Valdir Peres era um frangueiraço de marca maior. Um goleiro tenebroso, de deixar o pobre goleiro argelino de 2010 corado. Leandro e Júnior eram excelentes laterais NO APOIO, pois não marcavam absolutamente ninguém. Oscar e Luizinho jogavam o fino da bola. Todavia, zagueiro que se preze não pode ganhar o prêmio Belfort Duarte e precisa honrar o ditado “bola pro mato porque o jogo é de campeonato”. Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico jogavam bem demais. Todos os quatro meias, sem exceção, com a bola nos pés e em termos de movimentação ofensiva, eram brilhantes. No entanto, quem marcava? Quem cobria o avanço dos laterais? Todo contra-ataque era praticamente fatal: tivemos muita sorte de não termos, naquela época, uma Alemanha de 2010. Senão, seríamos uma presa muito mais vulnerável do que o foi a Argentina treinada por Maradona.
Cerca de 1/4 da população brasileira vive nos estados de RJ e SP. O grosso da indústria, do dinheiro, dos empregos, da mídia de circulação nacional e dos grandes patrocinadores concentram-se nesses dois estados. Eles possuem oito clubes que já foram campeões brasileiros e detém a esmagadora maioria dos convocados para todas as seleções. Naturalmente, quando uma maioria pensa em uníssono porque existe um forte vínculo cultural e a referência informacional é praticamente unânime, torna-se extremamente difícil racionalizar – o que dirá então tentar enxergar o contexto procurando adquirir uma visão externa…
Salvo raríssimas e honrosas exceções, em todas as classes sociais, castas, estamentos, etnias, sexos, religiões e faixas etárias, a esmagadora maioria da população brasileira não possui motivos objetivos nem para ser otimista, nem para ser patriota. Com ou sem razão, há muitas gerações, o relato do senso comum é permeado por discussões simplistas, pois ou sofreu-se a forte influência de ascendentes ultraconservadores e de pouco estudo, ou tomou-se como referência a mídia corporativa, que veicula notícias conservadoras voltadas à satisfação dos interesses de seus patrocinadores em detrimento da exposição de múltiplas visões com paridade de juízos de valor nas opiniões e sem misturar notícia e opinião. E um outro fator que complica a predominância de uma visão ais ampla por parte da sociedade como um todo refere-se à modernidade taylorista-fordista, na qual todos não passam de meras engrenagens que fazem a máquina do sistema funcionar. Quem trabalha de maneira mecânica tem o tempo ocupado demais com atividades pouco gratificantes e perde a capacidade de se pôr no lugar de pessoas cuja realidade a sua rotina limitada de “casa-trabalho-casa” os impede de vislumbrar.
Por outro lado, entendo, louvo e respeito demais que muitos não tenham interesse nem necessidade de conhecer ou sequer de gostar de futebol. Também acho sensacional que haja uma vontade de pertencer a uma coletividade, de encontrar um elemento de identidade sociocultural e que este elemento seja a Seleção…
…Contudo, o futebol não é nem o ópio do povo, nem a mais bem acabada metáfora da vida: afinal de contas, é tão difícil ocorrer uma onda de viciados em drogas, de vagabundos e de alienados como é mais difícil ainda que o mesmo futebol sirva de exemplo para solucionar a maioria dos problemas pessoais e coletivos que assolam o país.
A minha formação e a minha identidade não me permitem sentir-me integrado à maioria que apenas faz festa e torce sazonalmente pelo Brasil. Eu sou muito emotivo, me comovo bastante e choro facilmente com o esporte. E, ao contrário do que muitos possam imaginar, por ser sul-riograndense, não acho nada positivo quem pensa que o RS é melhor do que o Brasil ou que este estado deveria ser um país independente. Não canto mais a hipocrisia do hino riograndense, assim como não hastearia a sua bandeira. Pelo contrário: adorava hastear a bandeira do Brasil na hora cívica e gosto muito de cantar o nosso hino, que não é belicista nem racista como os hinos da França, da Alemanha e da Itália, que são os três com melodias tão belas quanto as do Brasil.
Mas daí a achar que o ato de torcer pelo Brasil em uma Copa do Mundo ou não fará de mim uma pessoa “melhor” ou “pior” do que quem torce ou deixa de torcer; que eu seria “mais” ou “menos” patriota ou que eu seria mais ou menos inteligente, segue uma distância de 23 universos. Realmente admito que não sou uma boa companhia, pois sou muito crítico e não tenho saco para patriotadas hipócritas ou por uma pseudoeuforia. Eu prefiro que quem jogue um futebol melhor, isto é, mais competitivo e com menos falhas, ganhe. Apesar de eu ter predileção pelas seleções africanas e por todas as latinoamericanas de língua espanhola (principalmente as do Prata), muitas vezes me ponho em uma posição de neutralidade, que irá me emocionar quando o melhor vencer e fazer com que sinta-me triste pela desclassificação de quem perde.
Digo que foi muito mais significativo para mim ter podido torcer pela Argentina de Diego Maradona e está sendo muito mais prazeroso e intenso torcer pelo Uruguai do que o foi pelo Brasil. Me reservo o direito de sentir-me mais integrado ao Prata e ao Grêmio do que a Porto Alegre, ao Rio Grande do Sul ou ao Brasil e de perceber que é esse futebol aguerrido e desacreditado de povos bem mais empobrecidos do que o nosso e de governos que normalmente investem muito mais na educação básica do que o brasileiro o fez em todos os tempos que me comove.
Afora o diário esportivo Olé e os excessos isolados de um portenho ou de outro, não consigo enxergar nenhum motivo inteligente e sério para me fazer tripudiar ou odiar os argentinos. Eles nos recebem bem demais nas suas cidades, assim como amam de paixão as nossas praias. Muitos podem ser excêntricos por cultivarem emoções bipolares e superlativas. No entanto, são pessoas agradabilíssimas de se conviver.
A ternura de um homem argentino beijando outro homem na testa ou no rosto demonstra afeto, compreensão e respeito fraternos e sinceros.
O futebol por estas bandas só terá chances de minimizar ao máximo as falcatruas e os desmandos que vitimam a sua respeitabilidade e a constância na sua qualidade no dia em que o Brasil ficar de fora de uma Copa do Mundo. Acho que só assim teremos uma chance de formarmos melhores dirigentes, melhores jornalistas e de termos uma cultura torcedora mais consciente e mais positiva.

![Reblog this post [with Zemanta]](http://img.zemanta.com/reblog_e.png?x-id=8e3365aa-49a2-442c-b3ce-7f63cef206fa)