APRENDER A PENSAR PARA TRANSFORMAR: UM DESAFIO IMENSO

dois posts atrás, declarei uma séria crise de identidade: vale a pena ou não eu seguir blogando? Se vale, quando, como, sob quais condições e em que circunstâncias eu devo blogar? A quem consigo atingir? A quem gostaria de atingir?

Depois da minha dissertação de mestrado, concluí que os semelhantes se atraem. Portanto, é extremamente raro produzir a diferença a partir do confronto de ideias.

Porém, o ideal seria que, após um estranhamento inicial, os interagentes se vissem instigados a ponderar sobre a informação recebida de lados bastante diferentes de uma mesma questão. Após essa reflexão, procurariam então multiplicar o mesmo estranhamento que tiveram quando viram seus valores confrontados pela visão antagônica ao seu referencial sociocultural rotineiro.

Sob uma ótica completamente otimista, via a etapa seguinte como a concretização de um engajamento capaz de produzir diferença na sociedade: seria a perfeita junção da prática com a teoria.

A isso os gringos dão o nome de “pensar fora da caixa”*.

Todavia, a espetacularização contida e continente nos e dos produtos ficcionais falsamente vendidos como informativos pela mídia corporativa associada ao corre-corre do dia-a-dia (p. ex.: o tempo perdido e o estresse do trânsito; a necessidade de cumprir várias tarefas ao mesmo tempo; a tensão constante de ter a subjetividade e a força de trabalho de cada um tratada como uma mercadoria descartável, etc.) põem por terra quase todos os esforços capazes de transformar um pensamento consumista em um pensamento de consumo consciente; e – pior – de mudar um modus operandi individualista para uma prática verdadeiramente social, isto é, solidária, horizontal e voltada ao compartilhamento e à circulação do conhecimento.

Infelizmente, a grande derrota do humanismo reside na falta de intensidade da busca e da filtragem daquilo que deveria ser mais profundo em termos coletivos. Poucos estão aptos a questionar, a procurar alternativas, a inovar, a empreender, a investigar. E raros têm coragem de tentar, de admitir, de deixar cair a máscara que criaram para proteger a si mesmos de algo que – no frigir dos ovos – não precisariam se proteger.

Encerro este post com a certeza de que, apesar do desânimo, ainda há fortes motivos para acreditarmos que alguns querem e podem ser ajudados a pensar fora da caixa… ;)

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* Thinking outside the box.

NADAL, FEDERER E TV = CONHEÇA O HOMEM URBANO

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Acompanhem a emoção desses torcedores provavelmente pobres dos EUA assistindo à partida em uma antiga e pequena TV de 17″. A gravação do game final provavelmente deva ter sido feita com uma câmera fotográfica digital, dada a baixa qualidade da imagem.

O que fica é a explosão de alegria de dezenas de milhões de aficcionados por RAFAEL NADAL em todo o mundo e o reconhecimento de ROGER FEDERER pela mais doída derrota de toda a sua magnífica carreira.

Quem disse que é só no estádio de futebol ou na várzea que se vibra?! É bom acostumarem-se a torcer com mais fidalguia e ponderação, porém sem perder a ternura, a garra e a espontaneidade jamais: afinal de contas, o futebol está-se elitizando nos estádios, enquanto as transmissões cada vez mais populares do fidalgo, aristocrático e reconhecidamente distante tênis têm-se tornado cada vez mais freqüentes.

Em uma sociedade midiatizada onde o sentido de pertença e de alteridade e os antigos valores de solidariedade, justiça e igualdade confundem-se e são severamente questionados à medida que não se pode mais confiar nas instituições propostas pela modernidade, o plano fechado sobre a emoção explícita ou contida em um olhar; o plano aberto em um tique nervoso ou em uma teatral tentativa de esconder seus tiques procurando dar uma de homem-estátua; todos os olhares na arquibancada e do outro lado da TV focados não em uma equipe mas, sim, sobre um homem para o qual está reservado ou o Olimpo, ou o subsolo abaixo do mármore do inferno.

Não que as pessoas sejam egoístas, hipócritas, apolíticas, aculturadas ou ignorantes de maneira geral: esse determinismo não pode ser aplicado a uma sociedade multicultural, multifacetada e hiperbolicamente referenciada e referenciante. Há focos ora periféricos, ora hegemônicos dessas formas maniqueístas de tentar abarcar o mundo e puxar a sardinha para a sua brasa. Mas é melhor procurarmos observar o que há de mais particular e original em cada nicho para só então analisarmos seus pontos de intersecção com outros grupos sociais.

Repito novamente: ao invés do esvaziamento, não é mais lógico admitirmos que ficamos para trás na evolução da sociedade e que precisamos conhecer os seus valores, reconhecer a sua alteridade para então descobrirmos para onde podemos direcionar uma nova linguagem e uma nova institucionalidade política?

Não que o futebol deixará de ser o esporte número um nos próximos anos ou décadas. Nem que o tênis venha a substituí-lo. Mas o crescimento da cultura do acompanhamento do tênis já ultrapassa aquela pequena elite godê e esnobe de outros tempos. Nem ela mesma consegue compreender por que esses “novos ricos” ou por que essa “chinelagem” está tão ligada nesse esporte.

Cibercultura. Fragmentação, Globalização. Ver a si como um indivíduo e não como uma cabeça de alfinete indistinguível de uma massa cujo objetivo sabe-se lá se é mesmo claro ou se as suas demandas irão mesmo me interessar.

Quem aprende a ver o mundo através da mediação só pode ser compreendido como um ente político mediado. A transmissão esportiva de um evento de tamanha magnitude mostra algo que os movimentos sociais, os partidos políticos, os jornalistas doutrinados pelo mainstream e a classe mérdia que come galinha e arrota faisão não conseguem enxergar.

Quem mais perde com o desconhecimento desses fatos são os movimentos sociais, principalmente os do campo.

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